Feeds:
Posts
Comentários

Numa noite chuvosa de um domingo o dia todo quente, ele saiu à rua dirigindo o seu coupé cabriolet com a capota retraída e um boné na cabeça. O boné, preto, tinha bordada a palavra BUCETA, em corpo suficientemente grande para ser lida por quem estava na calçada mesmo quando ele acelerava fundo o seu CC importado. As rodas eram de liga-leve, cromadas, de 19 polegadas. A palavra BUCETA era em dourado.

Porque nada mais fazia sentido para ele. Foda-se.

Foda-se inclusive a água que caía dentro do carro e ameaçava os bancos de camurça.

No cruzamento de duas avenidas desertas ele passou riscando, nem viu o farol vermelho. Nada aconteceu, não vinha carro algum para bater no dele.

Durante três minutos ele tentou acender um cigarro, mas não conseguiu por causa da chuva e do vento. Deixa pra lá, então.

Foda-se.

Era uma noite ainda quente, nesta cidade.

Horas depois a segunda-feira começaria de fato.

E onde estaria ele quando isso acontecesse?

Who knows? And, frankly, who gives a damn?

***

Pinto no lixo

OK, OK, eu até topo discutir os méritos do vegetarianismo a partir do choque causado pelas imagens desse vídeo aí embaixo, que mostra como são tratados os pintos inadequados (opa!) num ambiente de capitalismo selvagem/lucro máximo.

Mas, MAS, MAAAAAS, eu também quero perceber a mesma indignação, e ouvir os mesmos muxoxos de “tadinhoooos”, pelo que está descrito aqui (um caso específico) e aqui (série de reportagens).

Chorando se foi

Num dos livros do Michel Houellebecq há uma passagem em que o personagem principal, que já está — como de hábito na obra do autor — em pleno processo de transformar-se numa espécie de trapo moral irredimível, confessa que chorava copiosamente cada vez que relia os trechos finais de Curtain, romance de Agatha Christie que traz a última aventura de Hercule Poirot (spoiler: ele morre no final). Em português chama-se Cai o pano. O livro do Houellebecq eu acho que é o Possibilité d’un île, mas admito que passei horas folheando-o para fazer a citação direito aqui no blog e não achei esse trecho (também não achei em nenhum outro livro do cara).

Bom, mas o que eu queria dizer aqui são duas coisas: uma, que eu, quando era criança (a época certa pra ler Agatha Christie), também me emocionava sobremaneira com o destino final do diminuto detetive belga ao ler e reler Cai o pano na casa do meu avô, e ainda por cima estarrecendo-me renovadamente com a revelação de que ele, Poirot, quando ainda era jovem e policial de rua, havia matado um sujeito num tirotas durante uma operação — o detetive conta isso numa carta ao amigo Hastings (o seu Watson, se ele fosse o Sherlock Holmes) deixada pra ser lida após sua morte. Buáaaaaa, buáaaaaa.

A segunda coisa é que ultimamente eu também andei me permitindo chorar por bobagem. (Foi esse substantivo, “bobagem”, que eu escondi atrás da citação do livro da Agatha Christie, OI?!) Mais recentemente, por exemplo, venho derramando sentidas lágrimas ao ouvir a canção embedada logo abaixo, que vai naquele esqueminha picareta de não-clipe (no caso, é apenas uma foto do cantor).

FYI, eu tenho essa música num MP3 player e a ouço direto. Juro. É sério.

Sunglasses are mandatory.

Recesso

Sofri um acidente de moto e quebrei a perna. Faz um tempo já, foi no dia 30 de julho. Dois dias depois, 1º de agosto, colocaram uma placa de titânio e nove parafusos ligando as duas partes da minha tíbia, separadas (não totalmente) pela fratura. A fíbula (ex-perônio) também quebrou, mas nela não se mexe.

Ninguém tem nada com isso, claro. É só pra dizer que estou em casa, e em casa devo ficar ainda uns 20 dias, mais ou menos, até voltar a andar como gente.

Mesmo com bastante tempo livre, a vontade de escrever aqui no blog me escapa. Mas tenho de deixar registrados meus agradecimentos — acrescento que, em certos casos, até comovidos — às (várias) pessoas que me apoiaram desde o minuto seguinte ao acidente, quando eu ainda estava caído no chão, já tendo constatado o estrago na perna e já, é claro, sofrendo a dor existencial de jogar algumas semanas de vida pela janela. Quem ajudou, sabe que o fez. Obrigado.

Logo mais eu volto. E, como eu não deixei de ser eu, segue abaixo uma foto da minha perna no dia seguinte à operação, antes de o enfermeiro fazer o curativo no quarto do hospital; obviamente, hoje a situação dela é beeeem melhor:

perna

So fucking funny

Eu tenho horror a piadas. Eu tenho horror a humorismo e humoristas.

Um amigo meu dizia o seguinte: “Não existe uma piada que diga ‘o fulano atravessou a rua e chegou do outro lado’. Pra ter piada, alguém tem de se foder”. E fica mais fácil ainda alguém se foder se for bicha, preto, português (como se os lusitanos fossem burros e nós fôssemos gênios, né), mulher/loira/puta, deficiente, retardado, meninojesus, baixinho, gordo, desdentado. Etc. etc.

Um outro amigo meu repudia humoristas e humorismos qualitativamente e especificamente, afirmando o seguinte: “Eu faço minhas próprias piadas”. E, melhor ainda, as guarda pra ele mesmo.

E eu digo mais: quem gosta de stand-up comedy, quem paga pra ver esses manés, quem se junta à legião de seguidores deles no tuíti, é porque não tem um único amigo ou colega de copo minimamente engraçado ou espirituoso.

Se tiver saco, leia a notícia aqui. Se sobrar espaço (no saco), leia também o que o cara escreveu, aqui.

Uma dica: na Alemanha de hoje não se faz piada sobre nazismo. E isso não é hipocrisia, falso moralismo ou revisionismo via silêncio: é vergonha na cara e decência. No Brasil, um país que foi escravagista, a expressão “politicamente incorreto”, supostamente libertária, deveria ser economizada quando se trata da cor da pele.

Caro engraçadinho: vê se aprende alguma coisa assistindo a esse vídeo, tá?

O longo rio da vida

Pra quem gosta de chorar, tem dois filmes franceses em cartaz, “Bem-vindo” e “Há tanto tempo que te amo”, que fazem o serviço de maneira brilhante. Ambos grandes filmes, sendo melhor no geral e mais relevante no particular o primeiro, mas também admirável o segundo.

Não dá pra falar muito de “Há tanto tempo que te amo” sem o risco de estragar as surpresas do roteiro, mas eu recomendo a quem for vê-lo que preste atenção ao personagem do policial que atende a Kristin Scott Thomas na delegacia da cidade de Nancy, onde se passa o filme. Desde a primeira aparição na tela é impossível não se inquietar com as coisas confusas e meio tolas que o tira diz, sem falar das várias nuances do patético estampadas em sua cara. A atuação dela é esplendorosa, mas esse ator, Frédéric Pierrot, que eu nunca vi em lugar nenhum, dá um precioso show de intensidade.

A certa altura o policial revela seu desejo de conhecer o rio Orinoco, cuja foto ele mantém em sua sala. Mais tarde, numa pausa para um café com a Kristin, ele conta (e eu não sei se é verdade, não consultei a Wikipedia pra confirmar) que até hoje jamais foi encontrada a verdadeira nascente desse rio – num tempo, como ele observa, em que se sabe de tudo. Ou quase.

Depois de ver o filme inteiro a gente entende que o Orinoco é uma metáfora da vida, cuja fonte primeira é desconhecida ou inexplicável, cujo fim é conhecido e inaceitável – seu desaguar no mar, vale dizer, na morte. O filme “O quarto do filho”, outro que é de alagar com lágrimas a sala de cinema, também usa um rio para significar a vida e seu movimento contínuo e unidirecional, só que no caso a ideia era a de seguir sua correnteza para superar a tragédia contada pelo Nani Moretti. Esse você pode ver em DVD, e a emocionante canção de Brian Eno está aqui (o vídeo é truqueiro, mas vale).

E, como disse o mestre, the river is within us, the sea is all about us…

Cloaca

Eu nem estava muito afins de falar de política aqui, mas vamos lá.

Leiam isso aqui, à guisa de introdução do assunto. Foi publicado no Cloaca News.

Para ir ao texto completo do tal NF, clique aqui. É simplesmente inacreditável.

Por fim, um outro blogueiro surgiu nos comentários do CN oferecendo mais um petisco aos leitores.

Como disse, eu me havia proposto a evitar política por aqui. Até parei de ler o Tio Rei (sem link mesmo, não merece) para não me sentir tentado a dar pitaco. Mas a curiosidade é que eu – a não ser que esteja MUITO enganado – estudei com a filha desse tal publicitário, ali nas cercanias da sétima ou oitava série.

Ela era bem de vida e morava numa rua aqui do Sumaré. Como a minha escola era pública (dentro da USP, mas pública) e cheia de pobre, preto e favelado, quem vivia pra cá da ponte já era venerado como “rico”. Atenção, naquela época eu vivia beeeeem pra lá da ponte…

Enfim. Amigos meus vão dizer que estou, como sói, lustrando uma obscuridade. Paciência. Pra mim, é obrigação mostrar o que verdadeiramente pensa uma boa parte dos 10% que odeiam o presidente.